59. Não faça nada parecer importante
Meus roteiros são um monte de anotações, diálogos não terminados. Ideias, propostas e intenções para com aquele trabalho. Não pretendo “contar uma história da melhor maneira possível” e, tenho bastante claro, não ser um “contador de histórias” como vejo muitos quadrinistas se definirem.
Talvez por isso, tenha essa relação um pouco complicada (talvez não seja a melhor palavra, talvez romântica, talvez crítica…?) com esta parte do processo, na qual ainda faltam algumas coisas por fazer, mas quase todo o trabalho já está pronto, “materializado” e já consigo enxergar o que antes eram suposições. O tempo aqui funciona como chefe. Há muita coisa que gostaria de voltar e refazer. Mas nem sempre é possível e é bom que não o seja. Sempre fica a ideia de que aquela frase poderia ter sido dita de outra maneira e que naquele desenho poderia ter usado outro ângulo, ou mesmo, tê-lo feito “melhor”.
É sempre estranho olhar para trás e ver as coisas que fizeste: você muda. elas não.
________________________
Há alguns comentários por responder e assim que encontrar tempo, digo, terminar e publicar aqui esta parte da HQ, dou continuidade aos diálogos. Venho tentando deixar este espaço com uma cara um pouco mais adequada e funcional. Aos poucos, vai melhorando.
58. ART & CASH: Qual o preço dos quadrinhos?
Sei que poderia pensar em um título que acrescentasse algum tipo de informação interessante para a conversa, mas estava justo ouvindo um disco com este nome e me pareceu adequado.
Ainda que as citações apresentadas sempre no começo de um post tenham desaparecido por aqui, para começar esta conversa vou retomar este hábito:
1. “Se eu morrer amanhã, ficarei feliz de não termos seguido trabalhando com essa indústria com a qual eu não sinto conexão alguma” – Thom Yorke, após o lançamento de In Rainbows.
.
2. “Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação para irmã Dulce ou para Madre Teresa de Calcutá. (…) Na cultura, teremos que lidar sempre com a complexidade, não com a simplificação. O que se diz é que os grandes artistas não precisam desses recursos. Talvez eles não precisem. Mas nós precisamos deles.”- Juca Ferreira, ministro da Cultura – clique aqui e aqui.
Para complementar (ou talvez direcionar) a discussão deixo ainda algumas impressões recentes sobre o assunto:
a) Ao resenhar a HQ que disponibilizo neste espaço, parte deste projeto, André Sollitto no UniversoHQ disse: “Na onda das HQs digitais para download gratuito, Pedro Franz criou Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, uma história policial com um título gigantesco. (…) Pra quem está de “bode” com as diversas HQs chatas de nas bancas, Promessas… é uma ótima alternativa. E gratuita!“.
Ainda que não se trate de um história policial e que não acredito estar seguindo a onda de ninguém por disponibilizar meu material na internet, me interessa aqui discutir esta palava “gratuito(a)” presente no texto e suas relação com a democratização do acesso à cultura e à informação.
.
b) Sobre decisão do ministro Juca Ferreira, quanto a captação de recursos para a turnê do álbum Zii e Zie de Caetano Veloso, creio que o pensamento do ministro tem coerência: não é possível aplicar um critério para um artista e não aplicar para outro sem justificativas legais; e é importante “democratizar o acesso a um grande artista brasileiro” (1, 2.). Uma das justificativas apontadas por Juca Ferreira para a aprovação foi a de que os produtores de Caetano “se dispuseram a reduzi-lo para pouco menos da metade se for incorporado dinheiro público. Ao que parece, o ingresso cairia para R$ 40 inteira, e R$ 20 meia” e que isso “possibilita ampliação de pessoas na plateia”. Existe, como disse, uma coerência no pensamento do ministro. Não discordo disso. Nem discordo de que, se a lei não o exclui, Caetano possui o direito a inserir sua turnê.
Mas algumas coisas incomodam.
Como este “malsucedido” utilizado pelo ministro, que parece confundir o significado de sucesso em arte. E talvez a própria atitude de Caetano. Não é uma questão de certo ou errado, apenas talvez não seja uma atitude necessária. Vale lembrar o site Obra em progresso – que o Notas sobre o fim não deixa de se parecer – no qual Caetano apresentou o processo de criação de seu álbum porém, até onde sei, o próprio álbum não foi disponibilizado por aquele sítio.
Mas, como já disse, o que interessa aqui é este querer do Estado democratizar o acesso a um artista e, mais especificamente, qual a relação desta questão com os quadrinhos.
.
c) Em mesa redonda organizada no FIQ que participei (como ouvinte), com Amauri de Paula, Joe Prado e Sidney Gusman, intitulada “Scans e internet: impacto e experiências” havia uma relação de polêmica – no sentido Caras da palavra – tanto a mesa quanto os ouvintes apelavam para comentários como “eu sou contra baixar material na internet mas conheço quem baixa”. Os “palestrantes” falavam constantemente em direitos autorais, mas quando questionei o único autor presente na mesa de como os scans afetavamm o lucro que ele recebia com royalties ele foi categórico: “não afetam”. Mesmo assim, todos os participantes e ouvintes continuaram buscando soluções para acabar com o “problema”, lidando com especulações e não com fatos e “exigindo que o governo tomasse uma iniciativa”. A iniciativa, logicamente, de criar medidas que acabassem com os scans ou que os leitores pagassem pelas HQs baixadas. Um dos poucos comentários que atuou de forma diferente, cabe dizer que Amauri de Paula citou a disponibilização do projeto Cidades Ilustradas na internet e dos benefícios que isso trouxe.
Vale ainda lembrar a frase de Sidney Gusman (cito de memória): “Você não pode entrar em um restaurate e pedir um bife a parmegiana provar e se não gostar devolver. Então você não pode baixar na internet e ver se gosta pra depois comprar”. Algo assim. Creio que analogias entre qualquer tipo de produção cultural com bife a parmegiana devem ser evitadas.
.
d) Segue uma lista de alguns títulos interessantes e suas respectivas especificações e preços lançados no mês de novembro em nosso país (aqui):
- Gênesis por Robert Crumb (edição especial, formato 21 x 27 cm, 216 páginas, R$ 49,90
- Fracasso de Público (edição especial, formato 16 x 23 cm, 240 páginas, R$ 38,00
- Breakdowns (edição especial, formato 25,4 x 35,6 cm, 312 páginas, R$ 79,00
- Jimmy Corrigan – O garoto mais esperto do mundo (edição especial, formato 16,5 x 20,3 cm, 384 páginas, R$ 49,00
- Peanuts Completo: 1950 a 1952 (edição especial, formato 21 x 17 cm, 360 páginas, R$ 68,00, livrarias
.
e) As duas perguntas que tentei trabalhar em minha monografia sobre Alberto Breccia (mas também sobre as relações entre Quadrinhos, Arte e Design):
1. Como sabemos que quadrinhos são uma forma de arte, não seria então necessário que, como linguagem, também estivesse sempre sendo questionado seu limite, elevando seu potencial intelectual e renovando seu discurso de uma forma contemporânea e condizente com os nossos tempos?
2. E ainda, se os quadrinistas fazem arte, não deveriam então possuir essa atitude questionadora de expressão que caracteriza criadores de outras áreas e não estar tão atrelados às regras de um mercado quase sempre preocupado com o número de vendas?
.
f) O título do último post, sobre o envio de fotos 3×4 era Escambo. O envio de fotos é, em algum sentido estranho, um “pagamento”: o leitor mostra que confia o uso da sua imagem ao autor, que acredita de alguma forma num projeto que está apenas começando. Ele precisa disponibilizar seu tempo e dinheiro pela foto e pelo envio da foto para “financiar” o projeto. Ainda que de forma diferente, acontece algo parecido, quando ele disponibiliza o link para o download da HQ, comenta o trabalho, o critica através dos meios que dispõe. É tudo uma grande troca.
.
g) Em janeiro, estará disponível para venda o primeiro volume impresso de Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo (em edição em preto e branco, com 60 páginas, contendo os quatro primeiros capítulos da história em quadrinhos). Sendo assim:
Qual o preço dos quadrinhos?
_____________________
Diálogos anteriores:
3. O desejo de fazer Arte destrói sempre o melhor da cultura popular?
_____________________
Obrigado a todos que deixarem seus comentários. E continua o pedido de envio de fotos 3×4!
57. Escambo
Esta é a capa do terceiro capítulo que em breve estará aqui disponível para download gratuito. Faltam as fotos dos leitores. Por isso, refaço aqui o pedido de envio de fotos 3×4 para o projeto gráfico de Promessas.
.
.
Com o objetivo de desenvolver um projeto gráfico para Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo que aproxime as relações entre o design e as histórias em quadrinhos e possibilite um diálogo entre ficção e realidade, utilizo este espaço para fazer um pequeno convite aos leitores deste trabalho:
1.
Coloque uma foto 3×4 sua, junto a uma folha de papel com uma breve autorização do tipo: Eu, _______, RG ______, autorizo o uso desta imagem no projeto Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo. Data ____ e Assinatura.
2.
Então você fecha o envelope e escreve nele:
A/C Pedro Franz
R. Lauro Linhares, 635 – Bloco A4 – Apto 404
Trindade- Florianópolis – SC
CEP 88036-002
3.
Aí é só levar até o correio e você estará contribuindo com o projeto gráfico de Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo.
Sei que é algo que demanda um certo esforço e uma confiança no uso da sua imagem, que será utilizada para desenvolver um design que funcione como elemento estético que amplie o conceito de narrativa visual. Esta parte do projeto realmente depende do envio das fotos do público para ser concretizada.
Assim que, por favor, enviem seus 3×4!
56. 1933 foi um ano ruim
Algumas questões
a) Outubro terminou e não falei mais nada sobre a serigrafia que havia prometido aqui.
É sempre complicado cumprir meus prazos neste processo tão sozinho de se fazer algo: escrever, desenhar, editar, manter o blog, tentar divulgar e tudo o que envolve este trabalho. Mas é importante estabelecer metas e tentar ao máximo cumpri-las.
Sendo assim, alguns prazos que vocês podem me cobrar:
Novembro:
1. novo diálogo no site.
2. Publicação online do terceiro capítulo da HQ.
3. Impressão de imagem conceitual em Silk.
Janeiro:
1. Publicação online do quarto capítulo da HQ.
2. Publicação impressa do primeiro volume contendo os quatro primeiros capítulos da HQ Promessas .
3. Publicação online dos quatro primeiros capítulos em inglês e em castelhano.
b) Quando ela sentenciou que o fim do ano chegasse logo pois este tinha sido um ano ruim, parei e olhei os dez meses que se passaram e o que falta deste 2009. Inevitável – ao tentar entender estes ciclos que definimos para tentar dar uma lógica ao tempo – pensar na pergunta-clichê: “o que te faz feliz?”.
Quase uma hora escrevendo um enorme texto que foi direto pra lixeira.
2009 é um bom ano. Quero que os dois meses que faltam passem bem devagar. 2010 vai ser foda.
.
c) Fragmentos do texto O narrador de Walter Benjamin:
“Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente responsável por esse declínio.
Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade da arte narrativa está em evitar explicações. (…) O leitor é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação.
(…) A informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive nesse momento, precisa entregar-se inteiramente a ele e sem perda de tempo tem que se explicar nele. Muito diferente é a narrativa. Ela não se entrega. Ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver”.
.
d) Trecho de El erotismo de Georges Bataille:
““Toda a realização erótica tem por princípio uma destruição da estrutura do ser fechado que, no estado normal, é um parceiro do jogo.
A ação decisiva é o desnudamento. A nudez se opõe ao estado fechado, quer dizer, ao estado de existência descontínua. É um estado de comunicação que revela a busca de uma continuidade possível do ser além do retrair-se em si mesmo. Os corpos se abrem para a continuidade por intermédio desses condutos secretos que nos provocam o sentimento da obscenidade. A obscenidade significa a perturbação que incomoda um estado dos corpos semelhante à possessão de si, semelhante à possessão duradoura e afirmada. Há, ao contrário, despossessão no jogo dos órgãos que se derramam na renovação da fusão, semelhante ao vaivém das ondas que se penetram e se perdem uma na outra. Essa despossessão é tão inteira que no estado de nudez que a anuncia, que é seu emblema, a maioria dos seres humanos se esconde, com mais razão ainda se a ação erótica que acaba por despossuí-la sucede a nudez. O desnudamento, considerado nas civilizações onde ele tem um sentido pleno, é, se não um simulacro, pelo menos uma equivalência sem gravidade do ato de matar.”
55. Workshop
Um pouco em cima da hora, mas gostaria de convidá-los a participar amanhã, dia 29 de outubro (quinta-feira), do Workshop de história em quadrinhos que estarei ministrando no Centro Cultural Sol da Terra, em Florianópolis. A oficina é gratuita, parte da Mostra Multicultural de Florianópolis promovida pelo espaço.
O quê: Workshop de história em quadrinhos com Pedro Franz
Quando: 29 de outubro – 18:30 – 21h30
Quanto: Gratuito
Onde: Centro Cultural Sol da Terra
Av. Afonso Delambert Neto, 885 – Lagoa da Conceição
Florianópolis – SC
+ info: (48) 3232-2303
O aluno deverá portar bloco de papel A4 ou A3, lápis, borracha e possíveis materiais que tenha interesse em trabalhar (nanquim, pincéis, lápis de cor…). Os alunos serão orientados sobre a escolha destes materiais em função de seu trabalho, sendo importante a apresentação de uma amostra de suas obras. Não existe a necessidade de “saber” desenhar ou conhecer quadrinhos, mas sim, interesse em desenvolver uma pesquisa utilizando-se desta linguagem.
54. Concerto em “O” menor para harpa e nitroglicerina
De uma conversa entre Deleuze e Foucault.
DELEUZE: As vezes se concebia a prática como uma aplicação da teoria, como uma conseqüência; as vezes, ao contrário, como devendo inspirar a teoria, como sendo ela própria criadora com relação a uma forma futura de teoria. De qualquer modo, se concebiam suas relações como um processo de totalização, em um sentido ou em um outro. Talvez para nós a questão se coloque de outra maneira. As relações teoria-prática são muito mais parciais e fragmentárias. Por um lado, uma teoria é sempre local, relativa a um pequeno domínio e pode se aplicar a um outro domínio, mais ou menos afastado. A relação de aplicação nunca é de semelhança. Por outro lado, desde que uma teoria penetre em seu próprio domínio encontra obstáculos que tornam necessário que seja revezada por outro tipo de discurso (é este outro tipo que permite eventualmente passar a um domínio diferente). A prática é um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra. Nenhuma teoria pode se desenvolver sem encontrar uma espécie de muro e é preciso a prática para atravessar o muro.
FOUCAULT: (…) E por isso que a teoria não expressará, não traduzirá, não aplicará uma prática; ela é uma prática.
.
.
Do texto Os intelectuais e o poder, presente no livro, Microfísica do poder. Acho interessante acrescentar isso à conversa sobre teoria e prática iniciada aqui.
53. Impressões
Videozinho bobo apenas para mostrar uma edição preview (40 exemplares) de Promessas que levei para o 6º FIQ em Belo Horizonte.
Outra coisa ver a história impressa.
E o jornalista e escritor Romeu Martins, que antes me convidou para conversar sobre o trabalho, publicou um texto sobre Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo que pode ser lido neste link, no site Overmundo.
52. Copyleft. Manual de uso
Acabei de conhecer via BaixaCultura: Copyleft. Manual de uso, da Traficantes de Sueños, disponível para download aqui.

“Hace ya algún tiempo, el término copyleft saltaba los márgenes del código informático y se instalaba en todos los ámbitos de la producción intelectual. Todavía relativamente desconocido, torpemente pronunciado por los no iniciados, el copyleft se ha convertido sin embargo en la bandera de un movimiento cultural y político que reune a toda clase de creadores y trabajadores intelectuales: músicos, escritores, programadores, artistas, editores, juristas, mediactivistas y un larguísimo etcétera que amenaza con instalarse en cada rincón de la sociedad”.
Ainda não li, mas já recomendo.
50. Explicando imagens a um boi morto
Detalhe da capa da terceira parte de Promessas.
Antes, por baixo do vegetal amassado, fitas adesivas e fotografias, esta era a imagem que ilustrava o capítulo 3.
Farra do boi.
Lembrando ainda que continua o pedido para o envio de fotos 3×4 e para que os leitores participarem de nossas discussões. E, desde já, agradeço às pessoas que divulgarem, discutirem, comentarem ou disponibilizarem o trabalho em seus blogs, twitters, sites, redes sociais, etc. Muito obrigado a todos.










leave a comment