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Arquivos Mensais:janeiro 2011

A banda desenhada é, quase sempre, tomada como um todo, e não na sua variedade autoral, de estilos e de escolas artísticas, de fitos e de propósitos, de formas e modos. E, para mais, é quase sempre pautada pelos seus exemplos mais visíveis, i.e., mais comerciais e pertencentes ao âmbito das nostalgias ou das mais estreitas memórias de cada um, ao invés de inserida numa história de continuidades e experimentações internas a ela mesma. Evite-se, portanto, uma apreciação “emotiva”, que tanto se pode revelar numa atitude negativista – “nada na banda desenhada é digno de atenção estética” – ou numa atitude heróica e cega – “a banda desenhada é superior a x”.” - Pedro Moura, nas notas de Desenhar para o boneco experimentação artística na banda desenhada.

 

Parte 2.


Em seu livro Quadrinhos, sedução e PaixãoMoacy Cirne propõe, em ordem cronológica, um Cânone para os quadrinhos que transcrevo aqui:

1905 – Little Nemo in Sluberland (USA), de McCay
1911 – Krazy Kat (USA), de Herriman
1913 –  Pafúncio e Marocas (USA), de McManus
1923 – O Gato Félix (USA), de Pat Sullivan & Otto Messmer
1929 – Tintin (BEL), de Hergé
1934 – Flash Gordon (USA), de Raymond
1934 – Ferdinando (USA), de Capp
1937 – Tarzan (USA), de Hogarth
1941 – The Spirit (USA), de Eisner
1950 – Peanuts (USA), de Schultz
1959 – Pererê (BRA), de Ziraldo
1959 – Asterix (FRA), DE Goscinny & Uderzo
1962 – Mort Cinder (ARG), de Oesterheld & Breccia
1964 – Valentina (ITA), de Crepax
1964 – Fradinhos (BRA), de Henfil
1965 – Fritz the Cat (USA), de Crumb
1966 – Philémon (FRA), de Fred
1967 – Corto Maltese (ITA), de Pratt
1967 – Ken Parker (ITA), de Berardi & Milazzo
1991 – Sin City (USA), de Frank Miller


Não me interessa aqui comentar as escolhas de Cirne (feitas junto a outros três pesquisadores), mas sim questionar esse espaço de ausências entre 1967 e 1991.

Lembrando que o próprio autor, no livro, argumente sobre o que é um cânone e sobre o quão imperfeito e questionáveis são essas escolhas, levando em conta a importância de um livro (publicado em 2000) de alguém que é considerado o maior estudioso brasileiro da histórias em quadrinhos, se Cirne está “correto”, me perturba a ausência de qualquer outro estudioso que se aprofunde no que foi esse buraco criativo entre 67 e 91, nesse período de mais de duas décadas de ausência de títulos importantes para esta disciplina tão recente. Se “equivocou-se” (grafo em itálico ambas palavras pois sei que são inadequadas), é ainda mais estranho que nenhum outro estudioso (até onde sei), questione essa lacuna.

 

 

O que me parece é que as escolhas de Cyrne são feitas principalmente no âmbito das nostalgias e pautando-se pelos exemplos mais visíveis das HQs. Não existiu esseburaco criativo a partir 1967. O que talvez tenha acontecido neste período: Moacir Cyrne cresceu. E ele não percebeu que as HQs cresceram SEM ele.

Cirne é considerado um dos maiores estudiosos brasileiros das histórias em quadrinhos, escreveu diversos livros e estudos, e não pretendo questionar sua importância. O exemplo escolhido faz-se, é claro,  também por sua visibilidade, mas principalmente por me parecer representar sintomas comuns à nossa crítica e aos estudos das histórias em quadrinhos. Quando tomo isto como um exemplo, não me interessa apontar o dedo para ele e dizer que está errado. O dedo é apontado para mim, e para nós todos que, de alguma forma um pouco mais ampla, estamos envolvidos com as histórias em quadrinhos.

Na “crítica” nostálgica (que sente saudade de outro tempo e não entende o presente), na “crítica” preguiçosa (passiva), na “crítica” ignorante (que desconhece),  não há Crítica. Gosto se discute. E é preciso discuti-lo. Toda escolha estética é também uma escolha ética.

Isso é o mainstream, um tipo de contexto mediano que não é bom ou ruim, apenas chato” – Carsten Höller

PARTE 1

Foi ler El Eternauta que me fez voltar a me interessar por histórias em quadrinhos.

Isso era 2007. Eu morava em Buenos Aires. Para mim, os quadrinhos haviam perdido a graça, e nem a leitura ou a vontade de fazer HQs existiam mais. Mas como disse: aí apareceu a obra de Oeterheld e Soláno-López e fodeu tudo.

Não foi só o fato de a cidade que eu morava estar ali, o tempo inteiro, por onde os personagens passavam. Ou de, por trás de uma antiga história de ficção científica de invasão alienígena, os autores estarem realmente dizendo algo e de haver uma atitude naquilo, de fazer algo com aquele trabalho. Não era apenas descobrir que aquela história havia sido um enorme sucesso em seu país, e que as revistas semanais vendiam centenas de milhares de exemplares. Nem foi saber que seu autor foi morto, junto com sua família, pela Ditadura daquele país. Mas o que talvez mais tenha me marcado naquela leitura seja o fato de algo tão incrível existir – e há tanto tempo – e eu não saber.


E foi preciso ir lá atrás, de encontrar uma HQ produzida há cinquenta anos em um país vizinho, e percorrer esse caminho longo até hoje, e encontrar obras que as editoras não publicavam (ou publicavam pouco), e conhecer autores que as pessoas não falavam (ou falavam pouco), de descobrir a importância de coisas as quais não eram dadas importância (ou não era dada a devida importância).

Foi Oesterheld quem abriu a porta. Mas foi Breccia quem a escancarou.


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