A IGNORÂNCIA

Isso é o mainstream, um tipo de contexto mediano que não é bom ou ruim, apenas chato” – Carsten Höller

PARTE 1

Foi ler El Eternauta que me fez voltar a me interessar por histórias em quadrinhos.

Isso era 2007. Eu morava em Buenos Aires. Para mim, os quadrinhos haviam perdido a graça, e nem a leitura ou a vontade de fazer HQs existiam mais. Mas como disse: aí apareceu a obra de Oeterheld e Soláno-López e fodeu tudo.

Não foi só o fato de a cidade que eu morava estar ali, o tempo inteiro, por onde os personagens passavam. Ou de, por trás de uma antiga história de ficção científica de invasão alienígena, os autores estarem realmente dizendo algo e de haver uma atitude naquilo, de fazer algo com aquele trabalho. Não era apenas descobrir que aquela história havia sido um enorme sucesso em seu país, e que as revistas semanais vendiam centenas de milhares de exemplares. Nem foi saber que seu autor foi morto, junto com sua família, pela Ditadura daquele país. Mas o que talvez mais tenha me marcado naquela leitura seja o fato de algo tão incrível existir – e há tanto tempo – e eu não saber.


E foi preciso ir lá atrás, de encontrar uma HQ produzida há cinquenta anos em um país vizinho, e percorrer esse caminho longo até hoje, e encontrar obras que as editoras não publicavam (ou publicavam pouco), e conhecer autores que as pessoas não falavam (ou falavam pouco), de descobrir a importância de coisas as quais não eram dadas importância (ou não era dada a devida importância).

Foi Oesterheld quem abriu a porta. Mas foi Breccia quem a escancarou.


3 comments
  1. E haverá melhor reentrada do que essa? Para mim, a melhor dupla roteiro/desenho dos quadrinhos de todas as épocas. O teu trabalho só podia mesmo ser de tão alto nivel, Pedro.

  2. Felipe said:

    Pedro, é reconfortante ler um texto assim aqui. Como já escrevi em um dos posts diálogo, sou um recém interessado em quadrinhos. Faz pouco mais de um ano que voltei a ler quadrinhos e a procurar coisas nesse sentido.
    Sou bastante ignorante por enquanto no assunto, tanto que desconheço o títulos e autor que você citou. E quando agora mesmo fui procurar a publicação para ver preço e até mesmo quem sabe comprar, parece que não existe. Pelo menos não encontrei nada publicado no Brasil.
    E depois a industria reclama dos scans. Tem um autor brasileiro mesmo que diz que grande parte da pirataria é incopetencia da industria, já que onde a indústria chega efetivamente com um preço adequado, não se cria pirataria. Mas essa já é outra conversa.
    De toda maneira, é muito bom ver aqui um pouco do que te forma como referência. Pois continue a postar sobre as suas descobertas no caminho.
    Abraço

  3. odyr said:

    Breccia. Quem foi mais longe que Breccia? O homem começou lá no mundo Milton Caniff e acabou no mundo pós-moderno, cruzou tudo. Nenhum apego ao passado, nenhum medo. Unafraid, como dizia Michel Stipe.

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