A AUSÊNCIA
“A banda desenhada é, quase sempre, tomada como um todo, e não na sua variedade autoral, de estilos e de escolas artísticas, de fitos e de propósitos, de formas e modos. E, para mais, é quase sempre pautada pelos seus exemplos mais visíveis, i.e., mais comerciais e pertencentes ao âmbito das nostalgias ou das mais estreitas memórias de cada um, ao invés de inserida numa história de continuidades e experimentações internas a ela mesma. Evite-se, portanto, uma apreciação “emotiva”, que tanto se pode revelar numa atitude negativista – “nada na banda desenhada é digno de atenção estética” – ou numa atitude heróica e cega – “a banda desenhada é superior a x”.” - Pedro Moura, nas notas de Desenhar para o boneco experimentação artística na banda desenhada.
Parte 2.
Em seu livro Quadrinhos, sedução e Paixão, Moacy Cirne propõe, em ordem cronológica, um Cânone para os quadrinhos que transcrevo aqui:
1905 – Little Nemo in Sluberland (USA), de McCay
1911 – Krazy Kat (USA), de Herriman
1913 – Pafúncio e Marocas (USA), de McManus
1923 – O Gato Félix (USA), de Pat Sullivan & Otto Messmer
1929 – Tintin (BEL), de Hergé
1934 – Flash Gordon (USA), de Raymond
1934 – Ferdinando (USA), de Capp
1937 – Tarzan (USA), de Hogarth
1941 – The Spirit (USA), de Eisner
1950 – Peanuts (USA), de Schultz
1959 – Pererê (BRA), de Ziraldo
1959 – Asterix (FRA), DE Goscinny & Uderzo
1962 – Mort Cinder (ARG), de Oesterheld & Breccia
1964 – Valentina (ITA), de Crepax
1964 – Fradinhos (BRA), de Henfil
1965 – Fritz the Cat (USA), de Crumb
1966 – Philémon (FRA), de Fred
1967 – Corto Maltese (ITA), de Pratt
1967 – Ken Parker (ITA), de Berardi & Milazzo
1991 – Sin City (USA), de Frank Miller
Não me interessa aqui comentar as escolhas de Cirne (feitas junto a outros três pesquisadores), mas sim questionar esse espaço de ausências entre 1967 e 1991.
Lembrando que o próprio autor, no livro, argumente sobre o que é um cânone e sobre o quão imperfeito e questionáveis são essas escolhas, levando em conta a importância de um livro (publicado em 2000) de alguém que é considerado o maior estudioso brasileiro da histórias em quadrinhos, se Cirne está “correto”, me perturba a ausência de qualquer outro estudioso que se aprofunde no que foi esse buraco criativo entre 67 e 91, nesse período de mais de duas décadas de ausência de títulos importantes para esta disciplina tão recente. Se “equivocou-se” (grafo em itálico ambas palavras pois sei que são inadequadas), é ainda mais estranho que nenhum outro estudioso (até onde sei), questione essa lacuna.
O que me parece é que as escolhas de Cyrne são feitas principalmente no âmbito das nostalgias e pautando-se pelos exemplos mais visíveis das HQs. Não existiu esseburaco criativo a partir 1967. O que talvez tenha acontecido neste período: Moacir Cyrne cresceu. E ele não percebeu que as HQs cresceram SEM ele.
Cirne é considerado um dos maiores estudiosos brasileiros das histórias em quadrinhos, escreveu diversos livros e estudos, e não pretendo questionar sua importância. O exemplo escolhido faz-se, é claro, também por sua visibilidade, mas principalmente por me parecer representar sintomas comuns à nossa crítica e aos estudos das histórias em quadrinhos. Quando tomo isto como um exemplo, não me interessa apontar o dedo para ele e dizer que está errado. O dedo é apontado para mim, e para nós todos que, de alguma forma um pouco mais ampla, estamos envolvidos com as histórias em quadrinhos.
Na “crítica” nostálgica (que sente saudade de outro tempo e não entende o presente), na “crítica” preguiçosa (passiva), na “crítica” ignorante (que desconhece), não há Crítica. Gosto se discute. E é preciso discuti-lo. Toda escolha estética é também uma escolha ética.

Muito astuto.
a questão de tentar delimitar um cânone assim é sua efetivação. o cyrne de fato parece falar por paixão e ficam duas coisas: uma é analisar essa paixão (o momento que ken parker existe é talvez mais interessante que o ken parker em si. digo, do que o ken parker é fruto e tal) e o que move essa memória; segundo é exatamente o ponto que tu tocas, que é perceber o hiato! um pesauisador com algumas décadas a mais que o cyrne não teria como despresar obras dos anos 1980 que ele considera desemportantes.
pra mim “os doze trabalhos da mônica” é canonicíssimo! não escrevería gibis sem ter lido aquela merda.
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Un canon traza un círculo dentro del cual ocurren las cosas. Pero ocurra lo que ocurra, siempre ocurrirá DENTRO del círculo. Esa idea yo la considero fascista, totalitaria.
Es la idea de canon -de cualquier tipo, artístico, político, etc – lo que no deja correr el río. Agua que no fluye se pudre, se empantana, y con el tiempo se forma un desierto donde ya no crecen las flores.
El error para mí no es el hiato, sino la intención de dibujar ese círculo, en lugar de dar las herramientas al lector para que este forme SU propio círculo (su gusto, su personalidad, su persona).
Por eso no estoy de acuerdo, Pedro, cuando dices: “e não pretendo questionar sua importância”. ¿Por qué no?
Establecer un canon es como clasificar la historia de los pueblos en ciclos presidenciales.
Putz.
Concordo em absoluto que gosto se discute. Excelente frase para terminar (ou começar?).
Acho eu, e isso é realmente uma impressão, fique bem claro, que a maioria dos críticos, de praticamente todas as áreas são “opinistas”. Digo todas é claro sem ter o conhecimento de causa de todas as áreas, que são um monte. Mas dentro do que consumo, quadrinhos, ilustração, literatura e jogos intensamente além de cinema e musica com menos intensidade, quase sempre fica a impressão que os críticos dizem o que dizem se apoiando mais em questões emocionais do que criticas.
Claro que nenhuma crítica é ausente de emoção, afinal ninguém estuda um campo se não se interessa por ele. Mas acredito que o que falta é uma separação maior entre “o que eu gosto” e “o que é bom”. O critico se municia do julgamento (como a maioria das pessoas) de que “o que gosto é o bom”. O que não é verdadeiro, por mais difícil de separa que seja.
Como exemplo posso dizer que gosto de comer “podrão” na rua e isso não torna “podrão” alta culinária. Posso gostar de filmes “trash” mas defende-los cegamente como “cults” é cegueira. É querer estar sempre certo, ou pior, ser incapaz de reconhecer que, as vezes, por mais criterioso que se seja, se gosta de coisas ruins.
Ou seja, acredito que gosto se discute sim, mas não se trata de um conflito de opiniões onde um lado está certo e outro errado (mas muitas vezes é). E no mais todos temos o direito de mudar de opinião, e essa é outra dificuldade que muita gente tem, pois mudar é sob certa ótica, assumir que se estava errado (apesar de não ser).
Mas voltando a questão do crítico. O critico é aquele que se reserva o direito de julgar e avaliar o que é bom para todo mundo. Digo isso sem concordar com a definição mas quando você lê uma crítica o que você busca geralmente é uma recomendação, se o filme presta ou não, se o livro deve ou não ser lido.
Dessa foram, o critico fica em cheque, por uma questão de interesses cruzados. Ele não pode sair falando mal de nenhuma unanimidade por pior que seja, pois isso coloca sua posição em questão. Ao mesmo tempo não pode falar bem de tudo pela mesma razão. Ou seja, o critico profissional de modo geral segue apenas a corrente, recomendando o que todo mundo recomenda e criticando o que todo mundo critica. Ele que devia ser um formador de opinião ou referência ao menos, se torna uma voz em meio a muitas.
Eu não sei se já estou me perdendo aqui em relação ao ponto central (qual era mesmo?), então espero algumas respostas e volto a carga mais tarde.
Bom, se nenhuma crítica é neutra, ou seja, se toda opção estética implica em uma opção ética como fala o Pedro, penso que seria mais coerente o crítico esclarecer bem sua posição estética. Depois ele há de saber ir além, ou seja, há de saber explicar o que a produção que ele analisa significa para o contexto dos quadrinhos ou o que quer que seja que está em questão (além da sua opção estética).
Porque sabemos que não existe uma estética universal, uma verdade boa para tudo e todos. Também não creio que um bom crítico fale em termos de “isso eu gosto e isso eu não gosto”, porque isso é coisa de leigo (de quem não entende do campo) e espera-se que um crítico seja um estudioso, um especialista na área criticada. E este irá além do gosto e não gosto.
Perdão, corrigindo a primeira fala: SE UMA CRÍTICA NUNCA É NEUTRA….
Qualquer lista de quadrinhos que leve em conta qualidade ou importância e não apresente Sandman e Watchmen não obtém meu respeito nem aprovação. Não li o livro e portanto não sei se ele se mantém fixo apenas a histórias em quadrinhos produzidas no ocidente, mas deve ser provável. Pois desconsiderar obras como Lobo Solitário e toda a obra de Tezuka me parece um grande equívoco.
O buraco criativo entre 67 e 91. Não termina em 91, ele vai mais fundo. Termina em 2011. Sin City é um tropeço, um capricho, um enagno (?), de uma trajetória já decadente na produção das histórias em quadrinhos.
Após esse espanto inicial, começo a concordar com Cirne. Como um clássico se torna um clássico? Como um cânone se define? Entre várias coisas, está o tempo.
Como posso falar que um livro lançado no final de 2010 pode ser um cânone? Ou um livro que foi lançado há 10 anos? O tempo aqui importa. E muito. A obra continua relevante, 40, 50 anos depois? Segundo a lista de Cirne, sim. A lista de cânones permanece até hoje, aclamadas crítica e popularmente (dentro das possibilidades do nosso mundinho, é claro). Não me parece uma escolha pessoal, mas de constatação.
Existe um buraco criativo que começou em 1967 e dura até hoje? Eu acho que não. Mas não posso confirmar que daqui a 50, 60 anos, lendo um livro de Chris Ware, eu vou achar tão importante e tão relevante como quando os leio hoje, embora queira muito acreditar que sim.
Ele basicamente deixou de fora toda produção ligada à ZAP COMIX, Crumb e etc.
Também deixou de fora o Manara, o Moebius, o Hugo Pratt…
E também ignorou o Osamu Tezuka.
Se esses caras não são cânones eu não sei o que é.
é uma bela trampa de lista… podem limpar o traseiro com ela basicamente…
Sin City como cânone, por favor matem-me! Se há trabalho mais chato e reaccionário é o Sin city, lembro-me de comprar o primeiro volume dessa série e trocá-lo no dia seguinte por maconha!
e sim… falta Buzzelli, vários japoneses além do Tezuka, Garry Panter, Art Spiegelman, Harvey Pekar, entre outras tantas coisas… isso é coisa de velho biruta, em Portugal é parecido, há sempre uns velhinhos e novos com listas inúteis, melhores do ano, e coisas assim… mas falham sempre (como qualquer lista, diga-se).
parabéns pelo novo livro! Está canónico!
Marcos
Cânones não resistem à passagem do tempo, de modo que servem quando muito com uma guia inicial para dummys a respeito de determinado assunto (sendo que, mesmo com essa intenção, sua validade é passível de questionamento), e poderiam muito bem ser completamente ignorados.
Num olhar retrospectivo, sempre existe algo que se desenvolveu à margem, de modo absolutamente periférico, e acaba por se mosrtar influente, premonitório e decisivo nas concepções do presente (os trabalhos de Gary Panter, Raymond Pettibon e Fabio Zimbres me vêm a cabeça quando esse assunto vem à baila).
Quanto ao vão na lista canônica, dificilmente alguém conseguiria apresentar um argumento que me convencesse de que Sin City fez mais em termos de arrojo e avanço da mídia em seu período do que Ronin (1983-4) ou Cavaleiro das Trevas (1986) (e isso só para ficar no *pigarro* subcânone de Frank Miller).
De modo que me desculpem se considero esse ‘cânone’ mais esburacado que a cara do Lúcio Mauro. Diria que dificilmente uma lista desse tipo consiga ocultar a idade de quem a escreveu, e digo isso sem juízo de valor ou qualquer tentativa de soar cruel, mas como mera constatação.
Isso me lembra quando tinha uns 13 anos de idade e fui assistir a uma palestra de um ‘especialista em quadrinhos’ num sebo metido aqui no RS. O especialista era de fato exímio conhecedor de basicamente tudo que se possa ousar chamar de importante nos quadrinhos. Mas só até mais ou menos o surgimento d’O Pasquim; a uma certa altura declarou não ter certeza se o Batman pertencia à Marvel ou à DC, o que, pra um moleque acima do peso e com uma bela coleção de formatinhos, soou como um erro capital.