O TODO

“A legião de admiradores foi aumentando, mas até o mais fiel deles terá que apelar ao amor pela banda para não criticar a bagunça que é The King of Limbs. É preciso gostar cegamente do quinteto para enxergar pelo menos uma proposta musical nas oito faixas. (…) Sem as amarras do rock convencional, o Radiohead se sente livre para fazer o que quiser, mesmo que não passe de acordes dispersos que tentam criar “climas”. Tudo bem continuar a servir de objeto de culto de seus seguidores fanáticos. Mas já está na hora do bando de Thom Yorke parar de ser chamado de banda de rock” - Thales de Menezes, na Folha de São Paulo (aqui).

 

 

Parte 3.

Dizem: ¨a parte mais importante de uma história em quadrinhos é o roteiro¨.

Eu não acredito nisso.

É como dizer que a letra é parte mais importante de um música, ignorando tudo o que é instrumental, tudo que não é palavra. A sentença anterior separa algo que não necessariamente nasce separado. Assim como quadrinhos não são literatura (dizer isso é o mesmo que dizer que cinema é teatro) ou tampouco “literatura com imagens” (como gravar uma peça não é cinema), a frase parece dizer que uma boa história em quadrinhos deve: a) contar uma história b) da melhor maneira possível e c) que o leitor a entenda. Os quadrinhos são entendidos como um enorme todo falsamente eclético no qual são colocadas “todas as vertententes” dessa mídia. Um grande universo  que parece tentar discutir com os mesmos parâmetros Justin Bieber e John Cage. Em ambos casos tende ao erro.

Aliás, no meio dos quadrinhos, é bastante comum ver certas “manias” eternamente repetidas, como o uso do rótulo “quadrinho adulto”. A Vertigo, por exemplo, utiliza-o como slogan: “Quadrinhos adultos para leitores maduros”. De forma simplista, se levarmos para outra mídia é muito próximo a algumas series de televisão americana. O que a Vertigo faz é entrenimento de qualidade. O que a Vertigo faz, na maioria de seus títulos, não me parecem ser quadrinhos adultos. E tenho, pra mim, que boa parte de seus leitores são jovens (para não dizer adolescentes). E isso não tira em nada o mérito e a qualidade dos títulos da Vertigo. Pelo contrário.

É dessa relação que ainda existe para muitos que fazem (e lêem) quadrinhos de buscar apenas uma suposta “qualidade” da oratória e não analisar o que ali está sendo dito. Como se não importasse o discurso ou a atitude, mas sim se quem está discursando sabe falar bem. E só. Nos custa perceber e admitir que podemos gostar de algo que, de fato, abominamos. “Como eu gostei do filme, me entusiasmou e eu não sou fascista, não pode ser um filme fascista. Que nos leva ao paralogismo que todos conhecemos: eu sou de esquerda; gosto de chocolate. O chocolate é de esquerda”. Admitamos: Monteiro Lobato era racista (2). E Frank Miller é, cada vez mais, o típico fascista americano (3).

Texto não são apenas as palavras que aparecem escritas ou aquilo que acontece em uma história. Texto é tudo que se lê.

O roteiro é uma das partes. O importante é sempre o todo. O grande quebra cabeça que une todas as pequenas partes de um trabalho. Que faz uma obra ser o que ela é.

4 comments
  1. Acho que muita gente confunde roteiro com conceito. Quando a gente fala “conceito” para uma coisa chata, “conceitual” virou palavrão. Mas é o conceito que norteia a obra. Muitos diretores de cinema fodas filmaram sem roteiro, e muitos quadrinhos excelentes também são escritos na tora, mas sempre tem um conceito forte por trás. Roteiro é o mapa da viagem, mas o conceito é a bússola.

  2. Todos somos muito ligados ao sentido (“qual o sentido disso?”), o texto verbal parecer entregar esse sentido, objetivo, sem muito desafio. Se apegar apenas ao roteiro seria transformar qualquer obra, por mais visual que ela seja, e transformar em um texto verbal. O problema é que muitas vezes isso não leva a lugar nenhum, em outras leva à destruição da obra.
    Nenhuma linguagem é sempre objetiva. Isso exige um leitor que também não o seja.

  3. Sobre a afirmação de maior importância do roteiro: durante um tempo concordei com isso (com um certo senso de condescendência esnobe, afinal achava que NAS MINHAS HISTÓRIAS texto e imagens eram fundamentais) até perceber um erro de avaliação crucial.

    Uso como exemplo desenhistas que num primeiro momento tive como ‘peculiares’, ‘anticomerciais’ ou mesmo ‘toscos’ (num primeiro momento, artistas bem disparatados que se encaixariam nessa vertente: Vuillemim, Fabio Zimbres, o que o Batista faz na Mongoteca ou David Shrigley [que pode nem ser um quadrinista no sentido estrito, mas enfim]), mas cujas histórias disparam algum gatilho histérico e inexplicável, e propiciam leituras repetidas.

    Depois de um tempo (não lembro exatamente o que gerou essa epifania), entendi que os traços que me pareciam grotescos na verdade se beneficiavam de sua suposta crueza ao interagir com o texto (justamente aquilo de que os quadrinhos se tratam), num senso de ‘design estético-narrativo’ único – se é que posso arriscar um termo, tipo, IMERSO NA CONTEMPORANEIDADE.

    A própria noção de que esses trabalhos tinham/têm um estilo rudimentar se dissipou com essa mudança de paradigma, e pude perceber o quanto meu trabalho era uma bosta estéril, na melhor das hipóteses pseudo-realística. (Podem fazer alguma piada sobre o quanto ainda é.)

  4. Pedro, gostei muito do texto, concordo que quadrinhos é uma mídia a parte, com todas as suas possibilidades. Eu só acho que você confundiu roteiro com texto. O roteiro é um guia; você pode ter um roteiro de um quadrinho sem texto, por exemplo. É uma coisa que acontece, claro, o roteiro ser o texto, que é o modo que muitos roteiristas trabalham com os desenhistas, por isso eu entendo você ter juntado as duas coisas, mas eu iria além.

    O que eu colocaria (meus 2 cents) é que essa divisão roteiro/desenho é que é supervalorizada e mal entendida.”O roteiro é mais importante” vem da crença de que o jeito certo de se criar quadrinhos é em dupla e que o papel de um é superior ao outro. Em primeiro caso isso não é verdade, nesse tipo de divisão o desenhista tem um peso muito forte e ‘salva’ muitas histórias de roteiro ruim. Em segundo, pra quadrinistas que trabalham sozinhos (como você) ou que dividem o trabalho de outro modo, o funcionamento é outro. Pode nem haver roteiro, por exemplo, tudo pode surgir direto de rascunhos (ou direto no original, né, como no 24h comics :) .

    É isso aí, curto muito suas reflexões, prometo não escrever só pra pegar no seu pé em algum detalhe :) . Um abraço!

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