O PORQUÊ
“Tem um modismo no momento [sobre quadrinhos]. Eu acho que é algo passageiro. Eu acho que uma hora eles [os editores] vão ver que não vende tanto” – Lourenço Mutarelli
“Ya estoy grande para boludeces. Y eso del rock latino es una pendejada. Yo estoy seguro de esto: nosotros somos mejor banda que los Clash”. – Vicentico
Parte 4.
Enquanto produzia Underground, desenvolvi o (péssimo) hábito de assistir a todo tipo de video violento que encontrava.
Desenhava e escrevia vendo cenas de acidentes de carros, imagens de doenças estranhas, videos que mostravam as diferentes formas de matar animais. Não tenho certeza de como isso afetou o resultado do trabalho, mas certamente transformou o processo. Fazer Underground não foi leve. Como se eu precisasse juntar um monte coisas ruins em algum lugar, para conseguir desenvolver o que eu pretendia com aquele trabalho. Terminar aqueles quatro capítulos foi um enorme alívio. Um peso estranho tirado das costas. Fevereiro passou e ainda não consegui desenhar sequer uma página do próximo volume. São quase três meses sem fazer quadrinhos. E não está sendo assim tão ruim. Eu meio que sei que estou adiando começar Potlatch. Como se tivesse que entender, de novo, porquê se faz quadrinhos antes de voltar a essas páginas. O que te leva a passar tanto tempo fazendo algo que não te paga as contas.
Meus quadrinhos não vendem muito. Isso não é um desabafo ou uma reclamação. É uma constatação: meus quadrinhos não vendem muito. Quando faço um lançamento, consigo vender uns 15 ou 20 exemplares. Agora, somando os dois volumes, às vezes chegam a 30 os vendidos, quem sabe. Normalmente, consigo pagar os custos da viagem com as vendas. E a mala cheia que você tentou esvaziar deixando a maior quantidade possível de exemplares em qualquer livraria que aceite ficar com eles, em consignação, quase sempre retorna pra casa bastante cheia. E não há nada de ruim nisso, apenas não paga as contas. E te faz encontrar um outro valor para o que você faz que não seja o dinheiro. Não sei se é assim pra todos, mas pelo que vejo, fazer quadrinhos no Brasil não algo que ande de mãos dadas ao pagar contas de todo mês.
Parafraseando o mestre Vicentico: Isso de “quadrinho nacional” é uma palhaçada. A gente adora se separar dos gringos, como uma subcatergoria “nacional”, como nas video-locadoras, nas quais os filmes brasileiros aparecem separados. Estrangeiros em nosso próprio país. Que bobagem! É sempre mais fácil dizer um “não” para o o que está estabalecido do que um “sim” para algo novo. É sempre mais fácil reclamar. Tenho certeza disso: o quadrinho brasileiro vai bem, obrigado. Não deve nada a ninguém e é foda!
Há coisas lindas lá fora e é preciso buscá-las e conhecê-las. Mas o Brasil tem esse cara chamado Fabio Zimbres, que fez essa obra monstra incrível chamada Música para Antropomorfos, que deve ser uma das coisas mais importantes feita no quadrinhos na última década. A Cachalote é outra. Dessas que você lê e sente uma inveja enorme do Rafael Coutinho e do Daniel Galera. Que são dois autores, mas ali, são um só. Como essas raras parcerias que acontecem, como um Sampayo-Muñoz, que você espera que se repitam muitas e muitas vezes. E tem o Grampá. Que parece não se importar com limites pré-estabelecidos do que você pode ou não fazer. Penso na primeira vez que li Akira. As HQs do Grampá tem esse tipo de efeito na nova geração. Furrywater (que ele está produzindo ao lado do Daniel Pellizzari) virá e influenciará muita gente do Brasil. E da França, do Japão, da Argentina, dos EUA, da Finlândia.
Questiono muitas vezes a crítica de quadrinhos no Brasil, mas daí você lê os textos que o Erico Assis vem escrevendo no Blog da Companhia e há uma esperança grande ali. E você só pode torcer para que o Erico continue escrevendo. Que os textos dele influenciem outras pessoas e que, com o tempo, sejam muitos como ele. E exista uma revista impressa onde esses textos sejam reunidos e cheguem a um grande público.
E penso no Laerte, no Mutarelli, no Odyr, no Gerlach, no D’Salete, no DW, no Caeto, no Quintanilha, no Sica, no pessoal que faz e publica na Samba, na Picabu, na Mondo Urbano e na Beleléu. E em como não há nada parecido em nenhum lugar no mundo. Ninguém está fazendo o que esses caras fazem.
E é sobre isso que estamos falando. Não é só o fato de serem quadrinhos brasileiros apenas. Não é sobre um sentimento nacionalista que estou falando. É sobre a capacidade de descobrir coisas que nos sejam pertinentes.
Faço quadrinhos há dois anos. É pouco. Esta é minha primeira HQ. E ainda levará quase um ano até terminar os quatro capítulos finais. Quando comecei, ao usar a palavra “quadrinista” (ou quando alguém a usava para me descrever), me sentia um completo usurpador. Eu era alguém tentando fazer quadrinhos. E mesmo que ainda me sinta assim, já me sinto mais confortável com a palavra. Agora, me vejo como um quadrinista.
Terminei meu trabalho sobre Breccia, com as palavras da artista plástica argentina Marcia Schvartz. Acho que também cabem aqui:
“A verdade é que valorizo muito o que faço. Valorizo muito o papel do artista num todo, ao longo da história da humanidade. E isso é que trato de transmitir: que o que estão fazendo tem um valor muito além do que diz o mercado. Tem um valor muito grande pegar uma tela, um papel em branco e criar um mundo ali dentro. É isso, basicamente, o que é a arte“.
É estranho o porquê de fazer quadrinhos. É isso que decidi fazer. Não se trata de amor. Não é uma causa. Mas é algo que valorizo.
Fim do texto. Até logo.

Grande texto Pedro!
Caramba Pedro, esse seu texto me deixou bastante mexido pela franqueza do seu desabafo. Isso me fex refletir sobre os rumos que tenho dado à minha vida… ao meu trabalho, não meu emprego, o que paga as contas, mas àquele que paga a minha calma. Preciso rever minhas prioridades urgentemente. Um grande abraço fera.
Pedro,
Apesar de nunca ter comentado, sou uma leitora assídua do teu blog e prestigio muito teu trabalho como quadrinista.
A proposta do teu trabalho é apaixonante, a composição dos teus desenhos é algo que despertou o meu fascínio desde a primeira vez que me deparei com eles. Sei que elogios não pagam contas, mas acredito que neste caso (dada a franqueza e amor com que te referes ao teu trabalho) seja um bom combustível.
Abraços.
Bhá Pedro, texto foda demais!
Excelente texto. Retrata bem a realidade dos quadrinhos no brasil. Eu sempre vi isso da perspectiva do leitor. É interessante ver o mesmo problema pelos olhos dos autores.
Acho que a internet é uma ferramenta legal para tentarmos melhorar isso, seja por webcomics, forum ou redes sociais.
O importante é nunca esmorecer, não deixar essa arte perder a representatividade no país
Parabéns aos heróis da resistência, como vc e os que vc sabiamente citou no texto.
Yo hago HQ para decir al lector: “existe un mundo más allá (o más acá) de las cuentas”.
Muitas vezes é mais importante refletir lendo uma tirinha que até mesmo ter algum dinheiro na carteira e pagar uma conta qualquer do cotidiano.
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Demais, Pedro. Tamo junto.
É sobre viver e sentir, se manter aberto, procurar as brechas e fissuras no que existe aí, manter-se perto do perigo, o perigo de viver, de morrer, de amar, de se expor, de correr os riscos que giram em torno do erro, do exagero. Existe algo encantador que não pode ser ignorado nesse processo que é o grande perigo de se dedicar a algo que não necessariamente te premia, não te leva ao pódio. É do mundo das artes e da vida do artista, empilhar pedras no meio do mato, catar lixo pra fazer algo lindo, buscar a beleza do momento banal, gritar pro mundo algo que não tem muito sentido, achar sentido nisso e redefinir o acordo entre os sujeitos e os objetos ao redor. Não há escolha, não se aposenta de arte. Fora que é muito gratificante, dura mais do que qualquer trepada ou qualquer salário do mundo, ganha da morte e do amor, e – a melhor parte – não conflita, se soma, acumula, cresce. Teu trabalho tem essa força, e ninguém te tira isso, amigo.
Beijo grande,
Rafa
Muito bom o texto, gostei do que disse.
Sobre o assunto, mais especificamente o gênero de super-heróis brasileiros, fiz também há algum tempo atrás um manifesto que intitulei de O Super-Nada e está em meu blog. Fica o convite para conhecê-lo, você e seus leitores.
Um abraço!
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Its a work of love.
Como diz o Rafael, ganha do amor, porque os amores passam e esse fica. É o que me faz acordar todo dia. Dá sentido pra vida. Depois que eu abraçei isso de vez, a vida ficou tão mais simples. Se eu trabalhei bem, foi um bom dia. Durmo feliz. Senão, bueno, amanhã trabalho melhor. Um motivo pra acordar.
Eu não entendo nada de quadrinhos, o processo em si, mais gosto muito de apreciar e gostei muito do seu texto.
Parabéns!
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